


Discussão
Através das análises apresentadas acima, nós identificamos zonas de concordância e discordância entre os grupos-chave de stakeholders na modelagem de processos. Nossos resultados sugerem que as iniciativas de acadêmicos e vendedores nem sempre estão alinhadas às necessidades atuais ou futuras da indústria.
Notadamente, nosso estudo identificou que os três principais problemas na modelagem de processos, neste momento, considerando rankings de todos os três grupos de participantes, são as de padronização da modelagem de processos, identificação do valor da modelagem de processos, e também execução de processos a partir de modelos. Curiosamente, os participantes consideraram que tais questões foram tão significativas que elas ainda continuarão a ser desafios para os próximos cinco anos. Nosso estudo ainda identificou que os três grupos de stakeholders de modelagem de processos analisados têm opiniões diferentes quanto às questões críticas e desafios no domínio da modelagem de processo. Por exemplo, enquanto profissionais classificam a padronização das notações de modelagem de processos como sendo a questão mais crítica atualmente, acadêmicos percebem a orientação a serviços como a principal questão, apesar da questão da padronização continuar largamente sem solução.
Embora nós devêssemos concordar que, em larga escala, os esforços de acadêmicos e vendedores de ferramentas e soluções deveriam ser visionários por natureza, estabelecendo as bases de trabalho para solucionar desafios que profissionais provavelmente enfrentarão no futuro, o nosso estudo encontra apenas limitadas indicações de que isto esteja de fato ocorrendo na prática da indústria. Os profissionais consideram que as três principais questões atuais - padronização, valor da modelagem de processos e patrocínio - continuarão a ser os três principais desafios para os próximos cinco anos (embora em uma ordem diferente). Esta situação indica que estas questões são realmente críticas e se espera mais orientações sobre como proceder a respeito. Por outro lado, os acadêmicos consideraram a orientação a serviços, execução de processos a partir de modelos e flexibilidade como sendo as três principais questões atuais. Se considerarmos que a pesquisa leva alguns anos para ser assimilada na indústria e em produtos, nenhuma destas questões é mencionada de forma alguma no Top 10 das questões atuais, nem nos desafios futuros, pelos profissionais. Os vendedores têm um alinhamento um pouco melhor em termos da percepção das questões mais críticas, com valor da modelagem de processos sendo a questão atual número 2. Mesmo considerando algumas questões de ranking mais baixo ainda há um significativo desalinhamento entre os focos atuais dos acadêmicos e vendedores, em comparação com os futuros desafios identificados pelos profissionais. Padronização, por exemplo, é classificado como sétima questão atual mais crítica na lista dos acadêmicos, indicando alinhamento com os futuros desafios para os profissionais nesta área (terceiro desafio no ranking).
Outra situação interessante surge quando se analisam as diferenças dentro de um mesmo grupo de stakeholders, em termos de questões críticas atuais e futuros desafios. Espera-se que oito das questões atuais para os profissionais persistam como Top 10 nos desafios para o futuro. A situação dos acadêmicos, apesar de considerar um conjunto de tópicos diferentes, é semelhante, com sete questões atuais ainda esperadas no Top 10 desafios para os próximos cinco anos.
Implicações à Prática e à Pesquisa
Nosso estudo fornece implicações para o ecossistema da indústria de usuários finais, bem como para vendedores de ferramentas e ofertas de consultoria. Através da apresentação das questões atuais, esses grupos de stakeholders são informados sobre os fatores críticos chave que podem potencialmente minar o sucesso ou a geração de valor dos projetos de modelagem de processo.
As questões identificadas também ajudam a canalizar a atenção para os principais obstáculos que persistem à prática da modelagem de processos (por exemplo, gestão de modelos e padronização), e deveriam motivar profissionais e vendedores a considerar soluções mais adequadas, ou pelo menos paliativos para algumas destas questões. Mais notadamente, a padronização da modelagem de processos parece estar no topo da agenda dos stakeholders. Para os usuários finais, este resultado implica no estabelecimento, e uso, de um ambiente de modelagem padronizado e padrões disponíveis apropriadamente padronizados (por exemplo, BPMN, BPEL etc.), enquanto que para os vendedores será importante adaptar suas ofertas de forma a incorporar padrões existentes.
Em adição às idéias que nós fornecemos para a prática da modelagem de processos, nosso trabalho também informa uma agenda de pesquisas relacionadas com a modelagem de processos. Partindo do pressuposto básico de que a agenda de pesquisa deveria considerar tópicos relevantes de interesse futuro para os profissionais, o contraste entre os desafios futuros identificados pelos profissionais de modelagem de processo e as questões atuais de interesse pelos acadêmicos identifica diversas áreas que são de interesse dos profissionais, mas ainda não parece estar no radar dos estudiosos em BPM. Essas áreas incluem, por exemplo:
• Valor da modelagem de processos: Pesquisa que estude a proposta de valor real ou percebida, os benefícios ou os direcionadores de custos associados à modelagem de processos.
• Gestão de expectativas: Pesquisa que analise as expectativas e as pré-concepções, e as (des-) confirmações destas, em diferentes grupos de stakeholders envolvidos na modelagem de processo.
• Treinamento: Pesquisa que estude as diferentes abordagens para a construção de expertise em modelagem de processos, os efeitos da expertise sobre a qualidade da modelagem de processos, ou os fatores-chave que determinam expertise em modelagem de processo.
• Arquitetura de Processos: Pesquisa que analise o desenvolvimento, uso, composição, ou valor de modelos de arquitetura para orientar o ato de modelagem de processos.
• Adoção: Pesquisa que estude os determinantes e impedimentos chave associados à adoção e utilização contínua da modelagem de processo em um nível individual ou organizacional.
Constatamos que algumas destas áreas de interesse dos profissionais parecem similares em natureza a outras correntes de pesquisa estabelecidas em Sistemas de Informação em geral. Por exemplo, pesquisas sobre adoção [23], expectativa [24], ou valor [25] de Tecnologia da Informação estão bem estabelecidas nos domínios da pesquisa de Sistemas de Informação. No entanto, parece que essas áreas foram, até hoje, pouco pesquisadas no domínio da modelagem e gestão de processos de negócios. Esta situação traz à tona um desafio assim como uma oportunidade. Futuras pesquisas nessas áreas poderiam ser construídas com base no corpo de conhecimentos existente no domínio de Sistemas de Informação, e estender ou adaptar teorias existentes para serem encaixadas no contexto específico da modelagem de processos. Alguns exemplos de como esse trabalho poderia ser realizado já existem [por exemplo, 26].